As crianças brincavam em um típico bairro residencial durante todas as tardes e noites. Era uma rua tranqüila. Robinho se escondia nos galhos de uma árvore enquanto aproveitava e comia os suculentos jamelões maduros. E tacava caroço no velho Seu Preá e em quem passava por perto. Viviane, uma moça bastante exibida, jogava bola com os meninos e ela era a dona da bola. Toda vez os meninos largavam o futebol, era só virem no céu uma cafifa avoada, impotente, ao sabor do vento e caindo sempre em lugar que, o menos pior era furar o pé de um com vergalhão. E Viviane? Corria até mais rápido que os moleques. A moça tinha dois irmãos: Cabeça e Porroca, dois garotinhos que estavam escondidos, um atrás do muro de casa e outro no mato. Cabeça, Porroca e Robinho brincavam de pique-esconde com Ana Panelinha, que a essa altura já estava em casa, gritada pela mãe: Aninha, entra que eu não quero você misturada com menino. Ana fazia uma carinha quando ouvia: “misturada com menino”. Imaginava a idéia e gostava. Netinho chegava da escola, nem trocava de roupa, já estava correndo atrás de pião, folhão e pitetinho avoados.
Catarina entrou na rua já era de tardinha. Nunca se via ao certo de onde ela vinha, mas sempre subia as escadas do beco e também ninguém sabia pra onde ela ia, mas havia história. Robinho não perdeu tempo. Nem bem a velha se aproximou do pé de jamelão, que ficava próximo à entrada do beco e o pestinha tacou-lhe um jamelão inteiro, pra sujar mesmo, e gritou: “Catarina Peito-de-Pano!!”. Ao ouvir isso, Porroca, do mato mesmo gritou: “Catarina Peito-de-Pano!!”. Catarina passou, subiu o beco. Sumiu.
Viviane mal chegava, já tinha dois times montados e três de fora. Viviane chegou já no time de dentro, ouvindo reclamações. “Galinha de fora não dá peruada”, gritava. Ela era a dona da bola. Netinho com suas cafifas foi o primeiro a ver Catarina surgindo na rua e já veio gritando: “Catarina Peito-de-Pano!!”. Viviane largou a bola, escondeu-se atrás de um fusquinha e entoou a vinheta já conhecida de todos. Catarina passou. Nunca se via ao certo de onde ela vinha, mas sempre subia as escadas do beco e também ninguém sabia pra onde ela ia, mas havia história.
A mãe de Ana Panelinha ria e a filha perguntava porque aquela velha senhora usava tanta roupa e se ela tinha mesmo os peitos feitos de pano. A mãe disfarçava e dizia: “Aquela velha é maluca, nunca vi usar tanta roupa no verão. Dá idéia não”. Ana Panelinha estava procurando Robinho, Cabeça e Porroca, mas só encontrou Catarina Peito-de-Pano subindo a rua. Já gritou: “Catarina Peito-de-Pano!!”. Cabeça saiu de trás do muro de casa e musicalmente gritou o hit da molecada. Panelinha aproveitou e, no mesmo ritmo gritou: “um dois três pique boia Cabeça!!”. Cabeça gritou que tinha pedido licença. Porroca aprovetou da situação, saiu do mato e: “um dois três pique boia Wallace. Wallace era o nome de verdade de Porroca.
Netinho estava com um folhão no alto e os moleques mais prestavam atenção na tora do que no jogo. Gilsinho, que era primo de Robinho, aproveitava e esbarrava em Viviane. Ela gostava. Mas ela dava sopapo na cara dele. Os moleques gostavam. A mãe de Ana panelinha via tudo e mandava a garota entrar: “Essa Viviane não é flor que se cheire não. Se eu ver você com essa garota, Ana Cristina (que era o nome de verdade de Ana Panelinha), eu te dou uma coça de vara que você não esquece”. Gilsinho esbarrou em Viviane na hora em que Catarina surgiu na rua. Viviane gritou, dando tapas no garoto. O moleque correu de Viviane e esbarrou em Catarina. Saiu correndo e gritou. Catarina passou. Sempre subia as escadas do beco e ninguém sabia pra onde ela ia, mas havia história.
Catarina entrou na rua e não tinha ninguém brincando. Viviane estava passando cerol em linha de cafifa no quintal de casa e viu a velha. Gritou. Ana Panelinha, que estava procurando os meninos em outro lugar, em vez de gritar também, resolveu que ia seguir Catarina Peito-de-Pano. Catarina subiu as escadas do beco, virou numa rua e depois em outra. Ana Panelinha atrás. Entrou por um portão velho, desceu umas escadas e saiu em uma pequena vila. Ana Panelinha atrás. Catarina entrou em um casebre e Ana Panelinha espiava pela janela. Catarina tirou o casaco de lã e as calças que vestia e jogou na cama. Para espanto de Ana, por debaixo da roupa havia ainda outro casaco e outra calça. Da cabeça tirou o lenço que a cobria e do pescoço o cachecol. Havia por debaixo outro lenço e outro cachecol. Ana arregalou os olhos. Catarina tirou o par de luvas e de meias e por baixo havia mais um par de luvas e de meias. Catarina retirou de si várias camadas de pano até que, quando estava levinha levinha, com uma quantidade de pano que não permitia nem que ela continuasse em pé de tão leve, desabou a dormir na cama. Ana Panelinha deu um berro e correu em disparada. Chegou na rua gritando. Todos os moleques, que já estavam na rua, riram muito de Ana Panelinha, que estava fantasiada de Catarina Peito-de-Pano. Robinho, que estava no pé de jamelão, tacou um monte na menina. Viviane, que estava no time de dentro, deu-lhe uma bolada na cabeça. Chegando em casa, sua mãe caçoou, perguntando se o carnaval já tinha chegado. Ana foi para o quarto assustada e tirou de si o cacaco de lã, as calças, o lenço, o cachecol, as luvas e as meias e por debaixo havia outro casaco, outra calça, outro lenço, outro cachecol, outras luvas e outras meias. Ana Panelinha foi tirando todo pano que aparecia por debaixo das roupas, desesperadamente, incontrolavelmente até ficar levinha, mas nem assim parou. Já estava fininha e a última coisa que pode ver antes de arrancar seus olhinhos de botão de camisa, foi a imagem de Catarina que espiava pela janela.
Gabriel da Matta









